Entrevista com Leila Cohn

Pequenos ajustes, Grandes mudanças
(Matéria publicada no Jornal do Brasil de 04/09/04)
De Maria Vianna


A psicóloga Leila Cohn passou seis anos em Berkeley, na Califórnia estudando e trabalhando com o psicólogo americano Stanley Keleman, precursor nos estudos e ensinamentos da psicologia formativaTM, técnica que trabalha intensamente com a conexão entre o corpo e as emoções. De volta ao Brasil, fundou, em 1995, o Centro de Psicologia FormativaTM, no Rio, onde atende pacientes e ministra palestras sobre essa vertente da psicologia. Mestre em psicologia pelo California Institute of Integral Studies, ela acredita que é possível provocar grandes mudanças em uma pessoa através de ajustes no comportamento. Leila ressalta que, para uma vida equilibrada, é essencial que o indivíduo conheça seu corpo intimamente, pois é lá que estão as respostas para a maioria de seus anseios.

Na psicologia formativaTM o terapeuta inclui um trabalho corporal baseado nas teorias e metodologia de Stanley Keleman, do Center for Energetic Studies, em Berkeley, na Califórnia. Keleman criou um método com cinco passos, no qual o paciente, com a orientação do terapeuta, organiza novos comportamentos através da percepção de certos gestos e posturas. É um método que une os processos biológico, psicológico e social para mudar atitudes que interferem negativamente na vida do paciente.

· Como isso funciona na prática?
Através de um esforço muscular voluntário, a pessoa percebe uma série de atitudes prejudiciais que faz de forma automática. Se estou trabalhando com alguém impulsivo, por exemplo, peço para ele reproduzir determinada atitude. É lógico que no começo ele não vai entender, talvez nem se lembre o que faz no momento da impulsividade. Não importa, pois o padrão de comportamento também está em sua estrutura fisiológica. Imitando e desconstruindo a ação, durante a sessão de terapia, a pessoa começa a se perceber. A experiência física se torna uma experiência emocional, que vai mexer com pensamentos e emoções e, assim, ela começa a entender por que age daquela maneira. A mudança de comportamento leva à mudança de atitude em relação à vida, e pequenas mudanças fazem uma grande diferença.

· Em quanto tempo os pacientes vêem os resultados?
Como o trabalho age no padrão muscular-emocional, a resposta é rápida. A questão principal é como sustentar, manter e estabilizar a mudança conquistada. A transformação ocorre imediatamente, mas sua estabilização é um processo, o paciente precisa praticar exercícios em casa e na sessão de terapia.

· Na psicologia formativaTM, há uma ênfase em conectar corpo e mente. Qual o prejuízo que temos com essa desconexão?
Vivemos em uma cultura que separa o corpo que pensa do que sente. A maioria das pessoas se lembra do corpo quando adoece ou por questões estéticas. Elas vivem dizendo que precisam cuidar do corpo, como se ele não fosse delas mesmas. Isso gera uma série de problemas orgânicos e emocionais. Não há cisão entre nós e nosso físico, somos uma coisa só. A sociedade não respeita nosso ritmo biológico, quando alguém diz estar cansado geralmente já ultrapassou seus limites e está exausto. Esse excesso leva à desconexão e a pessoa passa a buscar referências fora dela, procurando respostas em academias, clínicas de estética, cirurgias plásticas e antidepressivos.

· Por que as pessoas estão tomando cada vez mais remédios?
Isso mostra que elas estão tentando se cuidar, mas não sabem como. O indivíduo está distante de si mesmo e isso gera um vazio existencial grande, ele fica sem saber o que sentir, sem saber qual é a sua verdade. Busca em outros lugares respostas para questões que são suas, de mais ninguém. Quando somos incapazes de dialogar com nós mesmos, surge uma grande carência. Vamos, então, a médicos, massagistas, academias. Tudo na tentativa de nos sentirmos melhor. Trata-se também de uma questão de mercado, que cria novas necessidades de consumo. Temos que filtrar as informações.

· Existe alguma queixa entre seus pacientes que seja comum a todos?
Os problemas e as queixas são diferentes, pois cada um tem uma história de vida, mas há um denominador comum na questão do envelhecimento. Com a chegada da meia idade, há uma dificuldade de aceitação dessa nova fase sem haver sentimento de vazio, de achar que a vida está no fim. É algo cultural. Nossa sociedade não honra a maturidade, que é uma época em que se colhe os frutos plantados, quando há uma mudança de ritmo, de anseios, de visão de mundo. Só que a propaganda mostra isso como uma fase de perdas, de envelhecimento. As mulheres são ainda mais bombardeadas por essa falsa idéia e se sentem decadentes. Todo um trabalho deve ser feito para que o indivíduo enriqueça com a maturidade e entenda que seu crescimento continua.

· Qual o caminho para conseguir conciliar as pressões externas e internas, e viver em paz?
É fundamental que o indivíduo assuma as rédeas de seu processo de crescimento. Ele tem que entender que a vida está sempre se transformando e que a possibilidade de mudar sempre existe. Na psicologia formativaTM, trabalhamos muito com esse conceito, para que o indivíduo perceba que ele não é vítima das circunstâncias ou de suas emoções. Existe sempre a possibilidade de mudar, de influenciar a si mesmo e transformar sua visão de mundo. Entender que mudanças positivas podem ser feitas a toda hora é essencial.

Metodologia formativa
A psicologia formativaTM faz uma abordagem baseada na noção do corpo como um processo somático em constante formação. A metodologia formativa, ou a ''prática de corpar'' trabalha com o contínuo pulsatório inato de contração e expansão de nossas células e tecidos, e com a relação entre corpo e cérebro. Ela faz com que a pessoa participe assertivamente do seu processo de auto-regulação e de suas transições de forma. Os exercícios possibilitam alterar padrões de organização somático-emocionais, influenciando nosso senso de identidade.

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